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Uma questão de escolha?

Diz-se por aí que o mundo é um lugar de escolhas. Cada um precisa tomar as suas decisões e o destino de cada está determinado por essas escolhas. Quem não ouviu esse discurso? Para aqueles que souberem tomar os bons caminhos haverá prosperidade, riqueza ou talvez somente aquilo que chamam de vida digna, sabe-se lá o que querem dizer por isto. E para outras pessoas, aquele grupo desafortunado que escolhe os maus caminhos - bem, estes estão em apuros, não há bons augúrios para estes. Nesse mesmo discurso, está implícito que a responsabilidade é de quem decide, e todos devem decidir. Todos são responsáveis e, às vezes, não admitem, mas é cada um por si. Donos de seus destinos, donos de si. Antes, um breve porém, que convenhamos, é omitido e não aparece nem em letras miúdas nesse jogo - nesse mundo não se escolhe onde se nasce, nem a época, nem sob quais condições. Mas vamos lá, são essas as regras, afinal o mundo é assim mesmo, dizem que é preciso dançar conforme a música.


Este jogo é dos difíceis e se você começar a perder, a culpa é sua. Faz parte da brincadeira engolir o choro. Portanto, sem reclamações, dizem que essa é a sociedade das opções, todos têm suas chances. E claro, quanto mais audaz, melhor - o ganho é proporcional ao risco. Você já ouviu isso em algum lugar, suponho. Um pouco de sofrimento é parte do processo - volta e meia, bastante sofrimento - mas faz parte. Quem não é feliz é porque se equivocou nas alternativas. Veja bem, há milhões de alternativas. Nessa sociedade, dá pra escolher qualquer coisa. Vamos pelo básico, mas confesso, teremos que abstrair de algumas coisas, como a infância, pelo menos nos anos iniciais, ou talvez quase inteira, já que ela não entra no jogo das escolhas (infelizmente, também omitem esse trecho). No entanto, voltemos ao mais simples, olhe, dá pra decidir sobre uns objetos, as roupas, o corte de cabelo, um celular, por vezes até a escola, a lista é longa. Nem sempre dá pra escolhê-los, mas ocasionalmente dá. No caso da escola, talvez não fosse possível escolher todas as disponíveis na sua cidade e isso tem uma explicação muito coerente, tenho certeza que você irá compreender, é que sua família ou quem for não escolheu muito bem antes de você. Infelizmente, há algumas limitações. Não dá pra afirmar se foi exatamente sua família mais próxima, só que foi alguém mais ou menos nessa linha. É uma pena, acontece. Acontece, inclusive, com bastante frequência essa impossibilidade de tomar essa e outras daquelas escolhas, logo não fique chateado por isso, essa é uma situação bastante comum.


Entretanto, se continuarmos nessa linha, irão possivelmente dizer que estamos descrevendo mal as coisas, mesmo com todo cuidado em apresentar somente algumas das regras gerais. Ora, ainda bem que sou eu quem escolhe as palavras por aqui. Não que eu tenha pensado em usar umas outras palavras ou suprimir alguma ideia mais polêmica, nem me passa pela cabeça a reação dos outros às minhas decisões, parece que isso não condiz com o jogo num primeiro momento. Até tenho a vaga impressão de ter visto choque de escolhas em outros momentos, umas pessoas reagindo um pouco agressivamente às outras, fazendo juízos um pouco apressados e rebaixando as decisões alheias. Soa familiar? Dá pra entender, afinal algumas decisões são melhores que as outras. E quem sabe das melhores escolhas? Pergunta difícil, nesse jogo do cada um por si já ouvi todo tipo de resposta.


Acho que deixei de comentar, esse é um mundo de indivíduos, cada qual com suas alternativas, porém ocorre um fenômeno imprevisto além daqueles raros conflitos de escolhas - apesar de cada um escolher por si mesmo, parece haver uma enorme curiosidade sobre as decisões alheias. Isso é muito estranho nessa sociedade-do-cada-um-por-si. No entanto, é o que se dá na prática. Não chega bem a ser uma exceção, dizem que é só uma característica peculiar. Cada um quer saber da escolha do outro - já arriscaram dizer que as pessoas querem as escolhas dos outros e teve gente mais sagaz afirmando que as pessoas querem escolher aquilo que elas supõem que os outros irão reconhecer como a escolha a ser tomada. (Não se preocupe, é normal ler a frase anterior mais de uma vez). Ocorre que isso tudo é como um acidente nessa sociedade, algo não planejado, fortuito, uma consequência, um atributo secundário do jogo. Sem querer, as escolhas de cada um acabam influenciando as escolhas dos outros, e temos uma pequena bagunça.

Também de forma acidental, isso acaba ocasionando um outro problema. Perfeitamente endereçável e corrigível, porém um estorvo momentâneo - costumo ouvir que estão trabalhando para resolver isso. Para ganhar o jogo nessa sociedade, é preciso tomar as boas decisões. Vamos voltar aos termos práticos, se não você ficará cansado com essa leitura, já que tem muitas outras decisões para tomar ainda hoje. Aliás, esse é um outro pequeno detalhe, há realmente muitas decisões - pelo menos é isso que falam, não se deve perder as oportunidades, não é mesmo? Por isso, é necessário escolher estar sempre muito atento aos movimentos nesse mundo e escolher um pouco de tudo para não deixar de escolher. Como disse, de volta aos termos práticos. Há uma fração de gente que tem enfrentado algumas dificuldades nesse jogo. Ninguém parece saber as escolhas corretas, mas por outro lado muitas decisões parecem ser corretas. Se pensarmos no trabalho, no dia a dia, as coisas parecem um pouco mais complicadas do que parecem no discurso. Nem todo mundo tem conseguido escolher corretamente para conseguir os devidos trabalhos, mas ao que indica, muitas escolhas vêm sendo realizadas. Cursos e mais cursos são procurados, dos curtos aos mais longos. E uma boa parte das pessoas não pode fazer curso algum. Mesmo assim, diz-se por aí que um currículo bem recheado é um caminho certo, só não disseram bem o que deveria estar lá, então parece que é melhor ter muito do que ter pouco, não é? No trabalho algo parecido acontece. É um outro efeito colateral, acidental, que muita gente esteja escolhendo pedir para que outras pessoas façam muitas escolhas no trabalho. E diante de tantas decisões, ora se flerta com um colapso, ora com o desespero. E há quem fique exausto muito nisso tudo. Uma parte das pessoas até perde a capacidade de querer escolher. O jogo é difícil. Além disso, uma outra fonte de preocupação constante pelas escolhas adequadas é do campo da estética, parece que há um caminho que não se pode ignorar para continuar atraente, logo é necessário escolher um corpo. Não só um, cada atributo físico precisa ser considerado. Assim como no trabalho, há muitas alternativas e apenas uma fração pode estar certa. Por pouco tempo, pois as escolhas corretas mudam frequentemente e tem sido quase impossível decidir de acordo.


Num dia você acerta, mas amanhã certamente estará fora de esquadro. Acabei omitindo que as escolhas podem ou não liberar novas escolhas e há quem atribua uma boa parte desse fenômeno ao dinheiro, pois este parece ser um elemento central - ele abre um leque maior de alternativas. Aliás, muitas deliberações se expressam por meio dele. E no entanto, ele se distribui de forma bastante desigual. É o mundo, há café de sobra na despensa para as decisões de amanhã. Alguém dirá que você escolheu errado hoje, mas sempre há tempo de consertar o curso disso tudo. "Seja você mesmo". "Seja sua melhor versão". "Tenha a coragem de se tornar o seu melhor". É um pouco catastrófico que muita gente tenha seguido esses conselhos à risca e jamais tenha encontrado a si mesmo. "Não dá pra encontrar a si mesmo, senão no outro", isto deveria aparecer nas regras, mas suprimiram esse trecho. E nessa história, alguns afirmam que sofrem. Falta de meditação? Falta de autoconhecimento? Escolhas equivocadas?

Arriscaria um palpite. Estamos na assim chamada era das fake news e do negacionismo. Por isso, temos notado que o discurso, a fala, aquilo que se diz muitas vezes não corresponde, nem de perto, à realidade. Aliás, isso parece sintomático de uma sociedade de indivíduos autoreferenciados, do cada um por si, logo cada um com sua verdade. Dependendo da situação, o absurdo está escancarado, como é o caso da terra plana. Mas e quando um discurso está disseminado por todos os cantos? E quando o discurso é hegemônico? Negá-lo fica mais difícil, pois aquele que nega se põe ao lado dos conspiracionistas.. Muita gente não quer essa alcunha, não pega bem, não parece ser o tipo de coisa que os outros escolheriam. Mas arriscaria dizer que esse não é bem um mundo das escolhas como contaram. Talvez um mundo assim exista, é verdade. Onde, não sei. Não quero dizer que quaisquer escolhas sejam ilusórias e bastaria negá-las para encontrar uma verdade. Aliás, a referência às fake news é também uma provocação, pois esse discurso que situa a centralidade das experiências nas escolhas feitas por cada sujeito é mais antigo que isto, ele apenas parece ter ganhado ainda mais ênfase nos últimos 50 anos. Essa doutrina das escolhas individuais vendidas em cada canto, embaladas na esperança de uma vida melhor, está relacionada às concepções que supõem haver uma Razão em cada pessoa, uma faculdade intelectual abstraída das condições na qual cada um se encontra e isolada das funções psicológicas - já ouviu falar na obsoleta separação entre Razão e Emoção? Nada mais equivocado e, no entanto, tão presente no discurso cotidiano.


Essa conversa de que depende de cada indivíduo tomar o melhor caminho para si transforma as contradições e conflitos em escolhas individuais. Assim, além da imensa simplificação que se opera para explicar e compreender o sujeito, transmuta-se os conflitos numa questão de responsabilidade isolada, no cada um por si, e o que sobra é uma farsa. E uma farsa dolorosa, pois não parece acidental a relação entre esse discurso motivacional e as formas de sofrimento que temos observado. Os desdobramentos dessa compreensão da vida não param aí, mas temos uma questão para início de conversa.


1件のコメント


Flavio Sérgio Mendes
Flavio Sérgio Mendes
2022年9月15日

A ação que mais se pratica na vida é a escolha, não há vida sem escolhas.

Veja, li seu texto e dentre tantas opções, escolhi fazer minhas colocações diante do assunto. Essa escolha levará a outras escolhas.

O que muitas vezes esquecemos é que não ter ação alguma também é uma ação, também é uma escolha, e trará outras escolhas.

Parto então do pressuposto que a vida é escolha, passo a centrar-me na modelagem do modo operante de minhas escolhas, o que me impulsiona: Segurança? Medo? Ousadia? Revolta? Acomodação? União? Aceitação? Ódio? Amor? Minhas escolhas têm sempre um mesmo norte, é só observá-las de uma forma macro, atrás de cada escolha minha, há a repetição de um ou alguns comportamentos.

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